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domingo, 1 de junho de 2008

POESIA


"Os ombros suportam o mundo

Chega um tempo em que não se diz mais:

Meu Deus.

Tempo de absoluta depuração.

Tempo em que não se diz mais:

Meu amor.

Porque o amor resultou inútil.

E os olhos não choram.

E as mãos tecem apenas o rude trabalho.

E o coração está seco.


Em vão mulheres batem à porta, não abrirás.

Ficaste sozinho, a luz apagou-se, mas na sombra teus

olhos resplandecem enormes.

És todo certeza, já não sabes sofrer.

E nada esperas de teus amigos.

Pouco importa venha a velhice, que é a velhice?

Teus ombros suportam o mundo e ele não pesa,

mais que a mão de uma criança.

As guerras, as fomes, as discussões dentro dos edifícios provam apenas,

que a vida prossegue e nem todos se libertaram ainda.

Alguns, achando bárbaro o espetáculo prefeririam,

(os delicados) morrer.

Chegou um tempo em que não adianta morrer.

Chegou um tempo que a vida é uma ordem.

A vida apenas, sem mistificação."



(CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE)

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